domingo, 14 de fevereiro de 2010

Pequenos pensamentos sobre a vida I

Vejo cada vez mais que essa terra imunda onde afundo meus pés se torna mais e mais podre, na medida em que meus olhos são abertos pela verdadeira face da vida, quando a venda das ilusões, que cobria minha visão e me deixava cego é retirada pelas dores do mundo.

Sofrer, ao contrário do que parece à principio, não é ruim. Na verdade pode ser uma oportunidade única de aprender como se joga esse estranho jogo que chamamos de vida. Quando sofremos aprendemos que nossos fracassos são causados pura e exclusivamente por nossas atitudes, que muitas vezes são tolas, fracas e prevísiveis. E mesmo quando fazemos o que críamos ser o certo corremos o risco de nos machucarmos, por sempre colocarmos nossas expectativas acima da realidade.

Quando aprenderemos que não basta lutar, ser justos e leais, nem darmos nossa amizade, nosso melhor, sem querer retribuição? O mundo é feito de pessoas, de outros seres humanos, que sonham, pensam, sofrem e desejam, tanto ou mais do que nós mesmos. E por ser feito dessa gama imensa de idealizações, muitas vezes o mundo não é o lugar seguro que esperávamos conhecer, nem nos dá boas-vindas quando chegamos até ele, vindos de uma infancia cheia de proteção e de carinho.

O mundo é mau, é injusto, severo e não perdoa nossas falhas. No mundo não existe segunda chance, não existe colo, nem tapinhas nas costas ou água com açucar para nos acalmar. Os acertos são, em sua maioria, deixados de lado, como se fosse sua obrigação acertar. No entanto o contrário raramente acontece. Se cometer um erro, por menor que seja, existe sempre a possibilidade de uma consequencia ruim advenha dele.

O mundo destrói nossos sonhos, nos prova que tudo que aprendemos e desejamos é apenas um emaranhado de tolices. Desde cedo aprendemos que todos somos iguais, que temos as mesmas chances, que todos podemos vencer. Esse é nosso primeiro engano, pois essa crença é falsa e tola. Saltam aos olhos os sinais de que somos todos diferentes uns dos outros, que dentro de nós existe um mundo particular e solitário, que não deseja e não pode ser dividido com os outros. E nesse mundo em miníatura residem as diferenças que nos tornam únicos e portanto distintos.

Cada qual nasce com seu comportamento próprio, com suas crenças, valores e desejos. Negar isso faz tanto sentido quanto negar que a etnia branca é diferente da negra, que por sua vez é diferente da amarela, apenas por convenções sociais, pelo politicamente correto. É lindo, em tese, dizer que todos somos iguais, já que assim o diz nossa lei. Mas crer piamente nisso não é ingenuidade, é burrice.

Essas diferenças, longe de ser algo ruim, são os primeiros sinais que nos fazem ter interesse em conviver com outras pessoas, em conhece-las melhor, despertando a vontade de ter um contato maior e mais intimo, meneado pela confiança e pela sinceridade. E nesse ponto surge em discussão outro ponto problemático do ser humano. O amor.

Amar, como eu mesmo já disse, pode ser ingrato e muito triste. Pode nos transformar em seres tolos, fracos, que sucumbem aos menores dos problemas e das dores. Amar é o primeiro sinal, de muitos, que a vida nos dá para que percebamos que não devemos ser apenas mais um, não ser apenas outra pessoa a andar por ai, sem rumo e sem motivo.

E quando percebemos, estamos amando, sem motivo ou justificativa. E nosso mundo se torna mais doce e azul e tudo parece possível e fácil. Mas não é. O mundo vem sempre em nosso encontro e nos atira contra o asfalto, nos machuca e nos fere fundo, na alma, para que nunca nos esqueçamos de que a realidade é distinta dos sonhos, das histórias belas que ouvimos desde cedo.

Esse pequeno texto é apenas um desabafo, que não quer e não tem a pretenção de ser claro ou ter um sentido real. É apenas isso, um desabafo e não deve ser levado a sério por ninguém.

Na verdade, ninguém deveria le-lo.

Mas, se escrevi, aqui está.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Amor

Os devaneios apaixonados de um ser
só podem ser medidos pelo tamanho de seu sofrimento
pois não existe amor que esteja livre da dor
embora exista dor que não seja amenizada pelo amor.

Chorar por amor é facil e simples
e a cada instante, uma nova lagrima insiste em rolar
pois sempre escolhemos amar de forma errada
e amamos a quem realmente não merece nosso pesar.

Por que simplesmente não amar
quando, na verdade, nos jogamos em um mar de ilusões?
Seria simples e terrivelmente facil
escolher não sentir amor e viver apenas por viver.

Mas amar nos deixa fortes e mesmo a dor nos faz crescer
amar não é só o fascinio fisico e mental
é ingrata entrega de tudo o que é mais intimo
para alguem que talvez jogue tudo ao vento.

Amor, estranho amor
Por que insiste em me faz vitima de suas tramas infinitas?
por que não permite que eu vá, vivendo minha simples vida em paz?
Amor, tolo e simples amor
se deseja acabar comigo, por que não me mata?
Seria tudo tão belo.

E pensar que, mesmo sofrendo,
insisto neste sádico exercicio de amar
pois a cada segundo que penso em você
eu encontro um motivo para me levantar.

Me perdoe, amor,
pois não vou mais ser teu
e nesta alforria forçada
em minha fuga desesperada
eu vou tentar te deixar para trás

Não chame por mim, meu anjo
por que para onde vou, as vozes são feitas de silencio
os beijos são feitos de vento
e o calor é feito de sol a queimar.

E se um dia voce se der conta
de que eu fui mais do que um amigo distante
que eu sempre dei meu melhor para que voce tivesse vida
e que eu sempre dei minha vida para que voce tivesse o melhor
será muito tarde, porque terei cansado de me entregar a voce.

Desculpe, amor
eu não quero te levar junto a mim
faz tempo que eu deixei de ser teu
para ser apenas um "nosso" distante

Amor, meu amor
será que minhas palavras um dia farão sentido?
Ou serão apenas isso, palavras, jogadas ao vento
perdidas num mar de desilusão e desencontro.

Meu anjo, me esqueça
e enquanto me esquece, não se esqueça de lembrar
que no meu peito viverá para sempre
mas que a cada dia, farei questão de te matar um pouco mais.

domingo, 7 de junho de 2009

Cronicas do cotidiano 1

Gritos.
Novamente seus pais brigavam, fazendo com que seu peito, já contaminado pela dor e pelo sofrimento, se oprimisse ainda mais.

Não podia ela entender, em sua angelical e pura inocência de criança, o motivo de tanta raiva, tanto desentendimento, tanta dor.

Não contava mais do que sete anos, mas, em sua mente, estavam gravadas cenas de medo e de horror. Mesmo não compreendendo a situação, parecia saber que seus pais não se amavam mais.

Novos gritos.

Ao longe, a voz áspera e grossa do pai dizia coisas imorais para sua mãe, enquanto essa se quedava em ruidoso pranto e súplica.

Parecia, aos olhos da pequena, que o único elo entre sua mãe e a vida dolorosa que levavam era ela própria. Se não havia abandonado aquele lar, que mais se assemelhava a um cárcere, fora apenas pelo imenso amor que nutria por sua querida filha.

Por diversas vezes, vira seu pai usar de sua vontade brutal e de sua força física para fazer prevalecer seus desejos.
E, como um rei, um ditador, um tirano, impunha seus desígnios de preconceito e machismo.

Por varias noites vira seu pai, bêbado, violentar sua mãe que, mesmo forçada a atos de imoralidade e que contrariavam seus princípios, se via obrigada a ceder aos impulsos carnais do marido.

Ela compreendia que seu pai a amava, quando estava sóbrio. O grande problema era que, nos últimos tempos, essa era uma cena quase impossível de ocorrer.

Ele perdera o emprego e culpava a esposa por seus erros profissionais. Não havia nele mais a figura do pai amoroso, apenas o jugo de um monstro, violento e agressivo, que se afundava cada vez mais no pântano do vicio.

Aos poucos, o silencio começou a reinar.
Havia sua mãe, portanto, cedido e se calado, aceitando mais uma imposição cruel de seu carrasco.

O tempo passava e mais e mais o dinheiro poupado em longos anos de esforço são gastos, sem que se obtenham resultados.

Os dias passam e a mãe adoece, num misto de tristeza, dor e angustia.
Causado, ou não, p ela tristeza e pelo sofrimento, o tumor cerebral cresce a cada dia.
O marido, cada vez mais devasso, deixa de lado, por certo tempo, o vicio das noites e se coloca ao lado da esposa.

Mas, quando a morte a leva, o pai, num misto de desespero e felicidade, dor e realização, se vê livre do fardo da esposa doente.

Deixa sua filha em casa, solitária e ferida pela perda, e se dirige ao bar.

Os anos se passam e a menina se torna uma jovem bela e solitária.
O medo e o trauma trazidos pelos maus tratos e pela violência de seu pai contra sua querida mãe haviam cravado nela uma barreira intransponível para o amor.

Eram sustentados por uma pobre e parca pensão, recebida de órgãos governamentais, gastos, em grande parte, nas noitadas do pai que, incauto e insensível, abandona a filha ao seu próprio esforço e sua própria dor.

A menina então procura, no trabalho domestico para famílias abastadas, o dinheiro para poder comer e viver de modo decente, mantendo assim sua vida pobre, mas digna.

Conforme seu corpo se desenvolve, mais a menina, agora praticamente uma mulher, percebe que seu pai passa a observá-la com outros olhos.

Temia que ele tentasse algum tipo de violência, assim como fizera com sua mãe por tantos anos.

No seu banho, a porta era constantemente trancada e, nas suas noites de sono, uma cadeira rígida, de madeira forte, escorava a fechadura, na tentativa de impedir a passagem do medo.

Um dia, no entanto, nada disso pareceu valer.

Na inconseqüência da bebida, seu pai entra em casa, seu corpo ansiando por uma satisfação carnal voluptuosa e proibida.

Arrombou a porta do quarto da filha, encontrando-a num sono profundo.

Quando ela acordou, era tarde demais.

As mãos pérfidas de seu pai seguravam seus braços e tocavam seu corpo puro e virginal.
Tentou gritar, mas a boca fétida e amarga calou seus esforços.

Logo o corpo pesado e forte subjugou o seu e então, com muita dor e humilhação, o ato foi consumado.

Lagrimas de vergonha, de ódio, de fúria rolavam pelo seu rosto e ela, num ultimo esforço, jura vingança.

O ato monstruoso logo se torna rotina, num tormento diário e freqüente, em que cada segundo significava mais dor e mais angustia.

Na escola, a menina se torna ainda mais distante e fria.
Mostrava, em suas atitudes e palavras, toda a dor e toda a angustia que tomava seu peito, mas parecia que este não era percebido por nada nem ninguém.

Cada vez mais o rancor aumentava e ela, forçada e humilhada, se via a pensar em morte e sangue.

Chegou a planejar o suicídio, mas a noticia da morte de um jovem aluno de sua escola, que se suicidara, atirando-se do topo de seu prédio, causou-lhe a centelha de duvida que fez com que ela desistisse.

Foi quando, numa tarde cinzenta de outono, que encontrou a resposta e a solução para todos os seus problemas.
Na casa de sua avó, encontrou a chave para sua liberdade.

A arma, brilhante e pesada, fria e fatal, estava carregada e parecia apenas esperar por suas mãos.
Seus dedos ágeis logo se apossaram do revolver.
Seu desejo era terminar tudo aquilo ali, naquele instante, mas decidiu esperar.

Naquela noite, quando seu pai, verdadeiro monstro e carrasco, tentou dela se aproveitar, ela, rápida e decidida, se valeu da força letal da arma para por um ponto final em tudo.

Logo o som dos disparos sobrepujava os gritos e o sangue manchava o branco carpete.

O corpo estirado, ferido, perfurado, morto, nada trouxe de emoção ou arrependimento ao peito sofrido da garota.

Nem pena, nem dó, nem medo, nem arrependimento, apenas alivio.
Seu corpo estava sujo com o sangue nodoso daquele que, um dia, fora seu pai, mas sua mente e seu coração pareciam não se sensibilizar.

Era agora órfã de pai e mãe, mas não se sentia infeliz, se é que podia dizer que tivera um pai.

Para ela, sua orfandade fora realmente decretada quando, pela primeira vez, seu pai se aproveitara de seu corpo.

Conseguira afinal honrar sua vida e salvar, pelo menos para si, seu orgulho, sua vida e sua dignidade.

Sentou-se na janela e ligou para a policia.
Não tinha medo, afinal passara por tudo aquilo que poderia fazê-la querer morrer e vivera.

Ao longe, gritos e sussurros cortaram o silencio da noite escura e então as sirenes se tornaram mais altas e mais próximas.

De seus olhos, apenas uma lagrima escorria.

Era por sua mãe, que não estava ali para poder ver que, no fim de tudo, ela conseguira ser algo que realmente valia a pena viver.

Disparou mais uma vez e então se fez o silencio.

Ao longe, a lua manchou-se de vermelho.

Relatório Policial

Vitima: Homem branco, 36 anos, cabelos escuros.
Causa da morte: 8 disparos de arma de fogo, sendo o ultimo na região da virilha.
Possibilidades: Homicídio, assumido pela filha.
Motivação: Histórico de violência sexual por parte do pai para com a filha, violência domestica.
Fato estranho: A menina, como que hipnotizada, segurava a arma quando foi encontrada pela policia. Foi ela a autora da denuncia.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Nação despedaçada pt5

Após alguns segundos de estagnação, Willian correu para a rua, procurando encontrar indicios de homem encapuzado. Mesmo que aquele realmente fosse seu pai, não haveria o que fazer para que ele entendesse que as duvidas que ele trazia consigo eram maiores do que ele conseguira esclarecer até então.

Voltou ao bar, procurando saber mais do Grande Visionario, que ele acabara de descobrir que existia realmente e que esse mesmo homem que existia e que estivera ali por instantes era seu pai.

Seu pai. Dele, que sempre fora solitario por ter perdido a mãe tão cedo e por não ter conhecido figura alguma da presença paterna em sua infancia. Suas noites tinham sido estranhas e nem mesmo um acalento, uma canção em seu nome fora cantada para que ele pudesse aprender que a escuridão era apenas a ausencia da luz.

E por que somente agora ele fora conduzido até o saber daquela instituição anonima, escondida nas sombras do segredo? Sua vida fora ruim, mas agora tudo começara a dar certo. Conseguira um emprego bem remunerado, onde poderia progredir em uma carreira visivelmente sem limites.

Passara anos a procura de algum sinal daquela familia que ele sabia que estava em algum lugar. E agora, que tudo parecia estar se encaminhando para alguma solução cabivel e realmente util, ele fora convocado para aquela sociedade reacionaria.

- Meu jovem, acredito que esteja bastante desanimado por não ter conseguido falar com ele. Mas creia, essa não foi a primeira e não será a ultima intercessão que ele fará em sua vida, pois os olhos do grande visionario estão por toda a parte.

- Eu só queria algumas respostas. Preciso saber o motivo de ter conseguido encontrar nas mensagens esparças que recebemos pela midia a chave para esse local, que eu nunca imaginei existir.

- Willian, Willian, voce é extremamente esquecido. Já esteve aqui por diversas vezes, juntamente com seu pai. Você, alias, participou de dois dos nossos primeiros congressos de decisões da sociedade.

- E por que eu não me recordo de nada disso? Deveria haver ao menos um vislumbre das coisas que fiz nesta época.

Foi então que uma voz familiar e bastante conhecida chamou-o.

- Will, você está aqui?

Olhou para trás e viu que ali, logo atrás dele, estava Mandy.

Continua.

Porque

O que te faz voltar aqui
me fazendo de idiota a cada instante?
Por que insiste em me ferir
com teu odio, tão brilhante?

Ainda pensa que sou teu
que te tenho em alta estima
mas não percebe, minha pequena
que a distancia que nos separa é tão grande.

Não desejo mais sua presença
não te quero mais aqui
cansei do fantasma da ausencia
que teu jeito faz em mim.

E mesmo que tente, nunca me fará cair em tua armadilha
pois teu jogo já é passado
e tuas regras são tão simples
de um jeito tão complicado

Mas entenda, de uma vez
que mato agora esse amor
pois já cansei de te querer
e em mim cultivar essa dor

Te vejo um dia, por ai
durante um passo no abismo
e te olharei de longe
do mais alto paraiso.

Esqueça que eu te fiz sorrir
pois me esqueço agora que me fez chorar
deixo para tras tudo que foi
procurando agora não ser mais.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Nação despedaçada pt4

Willian não pode conter o sentimento que o tomou naquele instante. Seu corpo foi tomado de um tremor e então ele exteriorizou seus pensamentos.

Ele riu.

Talvez seja mais exato dizer que ele gargalhou, pois sua risada se manteve durante varios minutos, atraindo a atenção de todos os que estavam no recinto. Seus olhos estavam marejados e ele parecia sufocado com sua propria piada.

-Voce só pode estar brincando com a minha cara, meu amigo. Isto é algum tipo de piada interna? Todos os jovens são recebidos com isso?

O homem o olhou tranquilo, como se aquilo não o surpreendesse. No entanto, uma das mulheres que frequentavam o local decidiu interromper o que para ela parecia um desrespeito ao ancião que ali estava.

-Porque voce ri? Parece que isto é uma piada extremamente engraçada. Voce poderia nos explicar?

Um homem que estava sentado no fundo, capuz cobrindo seu rosto, barba espessa e longos cabelos, questionou os motivos da mulher e disse apenas que o garoto tinha direito a descrença.

-Deixe o garoto em paz - disse o homem. - Não há motivo para tratarmos nosso jovem desta maneira.

A mulher permaneceu o encarando, de forma um pouco mais discreta e educada, mas não menos agressiva. O ancião o olhou com olhos suplicantes e apenas esperou que a explicação viesse dos lábios de Will.

-Isso é ridiculo, meus caros. E tem apenas um motivo. Eu não sou descrente nem nada, mas acho que o Grande Visionario não pode ser meu pai. E só existe um motivo pra isso. Eu não tenho pai.

Silencio reinou na sala e então ele continuou:

-Devo ter tido algum tipo de pai biologico, que me "fez", mas acho que minha experiencia paterna se resume a isso. Vivi até meus 17 anos entre os abrigos desta cidade e a casa de minha avó. Minha mãe faleceu alguns anos depois que eu nasci e então minha vida foi uma sucessão de desastres e de desilusões.

As vozes que questionavam sua palavra se calaram ao ouvir o tom triste, porém resoluto e decidido de Will. Não havia nele magoa ou rancor, apenas um sentimento de pesar.

Ele olhou fixamente para o homem e para seus interlocutores e prosseguiu:

-Eu passei os primeiros anos de minha vida procurando por um pai, mas ele nunca apareceu. E agora, que eu já possuo uma vida estavel e razoavelmente normal, começo a me embrenhar nesta loucura de sentimentos e de mensagens inexistentes. Tudo que sei é que algo me fez chegar aqui. E eu gostaria de entender tudo isso.

Seus olhos negros fitaram o nada por um instante e ele então questionou o homem sobre seu pai. Olhando fixamente para o homem, William deixou que sua duvida se expressasse em palavras.

-Você realmente sabe o que diz ou são apenas palavras soltas?

-Não tenho motivos para mentir, meu jovem. E pelo que vejo em seus olhos, você tem a mesma força e a mesma revolta que seu pai tem no olhar. Você é sem duvida filho de nosso Grande Visionario. Ele teria orgulho do seu ceticismo, se estivesse aqui.

-E onde ele está? Ele está por perto?

-Infelizmente para nós, meu jovem, ninguem nunca sabe onde se encontra o Grande Visionario. Sinto muito, terá que encontra-lo sozinho.

Alguem, que obviamente havia abusado do alcool e que parecia realmente abalado psicologicamente, gritou algumas obcenidades que Will não conseguiu ouvir. No entanto, ele continuou.

-Como podemos saber se ele é realmente um filho do Grande Visionario? Provavelmente sua mãe era apenas mais uma vagabunda que tinha interesse no status que nosso lider possui. Ele não passa de um bastardo filho de uma vagabunda, uma meretriz de quinta.

E então ele cuspiu no rosto de Will. A expressão calma do ancião pareceu tomada de choque, mas William não se moveu. Ele apenas encarou o homem, olhos cheios de uma piedade e ao mesmo tempo de uma raiva que não se fazia sentir por palavras.

O ébrio homem continuou com seu show de obcenidades, fazendo com que exclamações indignadas partissem das pessoas que o rodiavam. Então ele pegou uma garrafa de bebida que estava em sua mesa e a quebrou, formando uma espécie de arma com a qual ele avançou contra William, pretendendo claramente feri-lo.

Antes que Will tivesse tempo para tomar algum tipo de atitude ou reação, o homem de capuz negro estava proximo daquele repugnante bebado. E então todos sentiram o cheiro de sangue invadindo o ar e o som de ossos se quebrando se fez ouvir. Vidro se partiu e a violencia parecia estar tomando a noite que começara tão pacata.

Quando todos deram por si, William estava um pouco distante da multidão, e fixamente olhava para o homem bebado, que tinha sua mandibula destroçada por murros ferozes do estranho de capuz e parecia baleado no peito por uma arma de forte calibre. No entanto, antes que o choque passasse, eles perceberam que o homem de capuz não estava mais lá.

Ele havia desaparecido, assim que tudo havia sido feito.

Um olhar de aprovação passou nos olhos de Will e então ele entendeu.

Aquele homem só podia ser uma pessoa.

Aquele homem era seu pai.

sábado, 30 de maio de 2009

Nação despedaçada pt3

Seu passo estava mais lento mas mesmo assim a distancia parecia estar se acabando. Will sabia que o que procurava, no entanto, não tinha um ponto certo no mundo e que tudo o que ele mais precisava encontrar poderia estar em qualquer esquina.

As palavras do homem ainda ecoavam em sua cabeça, incitando-o a agir. Seu corpo ainda estava cansado pelo dia longo que tivera, mas ele não poderia deixar de correr. Algo nele dizia que uma atitude era necessaria.

Chegou até um pequeno botequim, onde muitos homens e mulheres se reuniam. No entanto, algo destoava da normalidade de um bar qualquer. As pessoa ali pareciam ter algo em comum.

Todas elas tinham em seus rostos a mesma atitude de revolta e de mudança, que agora mesmo contagiava seu ser. E, para ser mais exato, ele percebeu que todos tinham nas mãos uma pequena flor dourada que parecia refletir os ideais de mudança.

Logo que ele se aproximou, um homem, de grande estatura e de voz grossa o chamou:

-Jovem William, que bom que esteja agora ao nosso lado. Vejo que tambem percebeu o que deveria fazer.

-Como sabe meu nome? E ainda mais, como sabe o que me fez vir até aqui?

-Voce é esperado pelo Movimento há tempos. Se não fosse pelo movimento, de que maneira voce teria chegado aqui? Este local é secreto e somente os Membros o conhecem.

-Eu estou perdido e vaguei por horas. Como eu poderia saber que chegaria aqui?- A exasperação tomava conta de sua mente e ele não compreendia mais nada. - Isso não faz sentido.

O rosto do homem se tornou mais simpatico e mais leve. Ele entendia a consternação do jovem a quem ele, e os outros, esperavam. Sorriu e continuou:

-Voce parece não ter conseguido entender ainda o que te trouxe até aqui. Tudo que ouviu do Grande Visionario fez com que coisas que antes passavam despercebidas a seus olhos fossem compreendidas e então transformadas em atitudes. Nas palavras dos anuncios, existe linguagem secreta dizendo onde estamos, para que os que conseguem ver e ouvir cheguem até nós.

-Algo como mensagens subliminares? Isso é real?

- Não é algo como as mensagens que as pessoas acreditam existir em tudo. Existem mesmo segredos nos anuncios, nas musicas, em tudo que nos rodeia, enfim. Porém estas mensagens são apenas parte de algo maior, que nos faz querer mais e mais. É como uma droga que nos vicia em compras, em anuncios, em coisas banais.

-E foi isso que me trouxe até aqui? E por que voce me disse que me esperava?

-Voce, jovem William, tem um olhar questionador que pode trazer a verdade para as massas enganadas pelo mundo. Voce tem a voz e a vontade necessarias para mudar o cenario. Acredite, voce é especial.

-Cara, voce não pode acreditar o quanto isso soa piegas. Eu, especial? Para com isso. Eu até quero mudar e lutar contra tudo que agora eu posso entender, mas falar que eu vou trazer a verdade pras massas? Issso é forçar a barra.

O homem sorriu. Parecia que ele mesmo se via naquele jovem que chegara ali. Tanto tempo tinham destruido a descrença que tinha tomado seu peito naquela época distante. Tanto tempo... Mas não se deixou distrair e voltou a olhar para o jovem.

-William, se tudo isso fosse mentira, porque todos nesse salão estariam olhando para voce como a grande salvação? E outra coisa, menino, não duvide de minhas palavras.

Will se sentiu constrangido e, olhando ao seu redor, percebeu que os muitos rostos que ali estavam o fitavam com um brilho de crença nos olhos. Ele poderia ser completamente pirado, mas aqueles caras eram mais, pensou ele.

Foi então que surgiu uma pergunta em sua mente:

-Todos aqui foram capazes de encontrar esse local como eu mesmo o fiz? E, na verdade, quem é o Grande Visionario?

Com um olhar de espanto e de uma curiosidade impar, o homem alto olhou para ele com um sorriso largo e riu. Os outros tambem riram, acompanhando-o na sua surpresa. Ele decidiu que era hora do jovem saber por completo a verdade.

-Todos que estão aqui e os muitos que estão reunidos neste mesmo momento em muitos outros lugares como esse foram guiados pela intuição e pelos nossos sinais silenciosos. E voce, meu jovem, realmente não sabe ainda quem é o Grande Visionario?

-Eu já disse que não faço a menor ideia. Pode me dizer?

-Claro. O grande visionario não é ninguem mais alem de... Seu Pai.

Continua.

Um pouco de tempo

Nesse tempo que passa tão rapido
é tão raro se sentir assim
perdido na lentidão do mundo
e nas ondas do mar

As ondas do radio me fazem balançar
e a musica me acalma um pouco
mas o tempo me joga contra a luz
e a cegueira me atinge voraz

A vida esfrega meu rosto no asfalto
destroi meus sonhos mais e mais
cada segundo parece eterno
e cada dia é um inferno, nesse paraiso de ilusão

Voce foi meu carma, meu inferno pessoal
foi apenas uma dor em minha vida
foi minha prova de fogo
me mostrando o quão forte eu posso ser

Me faz enxergar de novo
que ainda existe um pouco de tempo
para que nossa vida siga o rumo
bem longe de voce

E enquanto meu sorriso se fizer real
eu quero ver tua lagrima cair, ao longe
me fazendo perceber que tudo o que passei
não é uma infima parte do que voce merecerá.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Nação Despedaçada pt2

Sua cabeça girava e veloz, os pensamentos pareciam invadir seu corpo como agulhas de um intenso e voraz aço afiado. Ele parecia entender agora. Tudo fazia sentido, ou pelo menos grande parte fazia.

O rosto na televisão continuava seu discurso inflamado e intenso:

- Devemos seguir um rumo diferente do qual nossos pais e avós escolheram trilhar em suas vidas. Devemos criar nossa maneira de ver a vida e não nos deixar levar por tudo que é constantemente colocado em nossos seres.

Will começou a pensar, consternado e abalado pelas afirmações fortes daquele ser que não fazia sentido e mesmo assim era muito mais sensato do que qualquer outra pessoa que ele já ouvira em sua vida.

Seus olhos não piscavam com frequencia, temendo perder qualquer detalhe importante daquele que poderia ser o começo de uma nova era em sua vida. Com toda a certeza, aquilo não poderia ser coincidencia.

Naquele mesmo dia, ele havia tido uma discussão calorosa com seus "amigos", sobre alguns temas nos quais ele discordava da opinião geral com grande força.
Para a maioria deles, politica não deveria ser um tema corrente e não era nada "cool". Era apenas um assunto chato e que deveria ser relegado aos mais velhos.

Ele, no entanto, tinha suas visões sobre politica enraizadas em seu ser jovem. Ele tinha convicção forte que uma mudança radical, porém justa, devia ser efetuada na sociedade atual. Não adiantaria de nada o progresso, a evolução tecnologica e tudo o mais, se grande parte das pessoas não tivessem acesso a tudo isso.

De que adiantaria um programa espacial que levaria os homens a viagens de passeio pelo cosmos, se na Terra milhões e milhões de pessoas morriam de fome e de doenças simples, por não terem um infimo investimento governamental em suas vidas?

No entanto, ele não era a favor de nenhuma politica comunista ou socialista. Acreditava piamente que estes regimes governamentais eram falhos, pois tiravam do homem o espirito competitivo e curioso que o fazia progredir. Ele cria que, em um sistema perfeito, deveria haver uma maior igualdade de oportunidades para que todos tivessem chances de conseguir seus objetivos pessoais.

O homem secreto continuou seu discurso:

- Não pensem que estamos sós. Existem outros poucos, porém fortes, que tambem podem ouvir ao nosso chamado silencioso. Portanto, meus caros, não temam a fraqueza, pois ela é um ledo engano forjano em nós por pessoas que nunca enfrentam a realidade da vida. Devemos, pois, seguir adiante na nossa luta, que continuará nas sombras, até que tudo tenha sido mudado.

- Peço a todos voces que não se esqueçam do mais importante. Tudo que ouvem e que dizem é ouvido e visto pelas forças que tentam nos calar. No entanto, sua força está diminuta, pois a crença está fraca. Nossa luta está proxima de um desfecho, portanto, não desistam.

Will estava perdido em suas considerações, tentando entender totalmente as palavras do estranho que lhe dizia coisas que ele mesmo já pensara em falar.

Não podia deixar de sorrir.

Algo estava prestes a acontecer no mundo, modificando tudo o que se conhecia. Ele sabia que tudo estava ali, a um passo, pronto a desmoronar.

E então ele decidiu que daria esse passo ainda aquela noite.

Continua...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Nação despedaçada pt 1

Caminhou aos poucos, parando apenas para respirar com mais força.

Seus passos cansados, fugazes, tolos, faziam apenas uma direção estranha, distante da realidade, sem um pensar mais forte.
Caminhava em busca de algo que ele sabia que nunca encontraria. Era apenas mais um sonho vão, onde enxergava nas luzes da tevê o verdadeiro sinal do mundo.

Para ele, tudo tinha se desfeito e agora ele podia enxergar a verdadeira verdade, a face cruel e bizarra de um mundo que não fazia sentido. Aos poucos, ele pôde vislumbrar a insensatez do mundo.

Ao invés da face falsa, nojenta, infame, daquele maldito politico, ele agora via um rosto distorcido, desconexo, porem sincero. E ele podia ver agora que nada do que ele dizia parecia condizer com as palavras que ele ouvira antes.

- Nação cega e ignorante, não deveis mais continuar neste caminho de ilusão. Vós que enxergais a verdade e que realmente ouvem o que é dito, unam-se numa familia forte, que conseguirá mudar os rumos do mundo!

Vociferou algo que não foi entendido, e continuou:

- Não podemos nos curvar a uma teoria que nos faça ficar cegos ao mundo. Somos feitos para questionar e não podemos deixar que nos façam de marionetes, como tolos fantasmas de uma vontade que não mais se manifesta.

-Sigamos a ir contra tudo e todos, desde que consigamos manter nossos próprios desejos vivos em nós. Ouçam, raros que podem sentir a verdade. O tempo do despertar está proximo e a realidade não é mais como costumava ser.

Continua ...