domingo, 7 de junho de 2009

Cronicas do cotidiano 1

Gritos.
Novamente seus pais brigavam, fazendo com que seu peito, já contaminado pela dor e pelo sofrimento, se oprimisse ainda mais.

Não podia ela entender, em sua angelical e pura inocência de criança, o motivo de tanta raiva, tanto desentendimento, tanta dor.

Não contava mais do que sete anos, mas, em sua mente, estavam gravadas cenas de medo e de horror. Mesmo não compreendendo a situação, parecia saber que seus pais não se amavam mais.

Novos gritos.

Ao longe, a voz áspera e grossa do pai dizia coisas imorais para sua mãe, enquanto essa se quedava em ruidoso pranto e súplica.

Parecia, aos olhos da pequena, que o único elo entre sua mãe e a vida dolorosa que levavam era ela própria. Se não havia abandonado aquele lar, que mais se assemelhava a um cárcere, fora apenas pelo imenso amor que nutria por sua querida filha.

Por diversas vezes, vira seu pai usar de sua vontade brutal e de sua força física para fazer prevalecer seus desejos.
E, como um rei, um ditador, um tirano, impunha seus desígnios de preconceito e machismo.

Por varias noites vira seu pai, bêbado, violentar sua mãe que, mesmo forçada a atos de imoralidade e que contrariavam seus princípios, se via obrigada a ceder aos impulsos carnais do marido.

Ela compreendia que seu pai a amava, quando estava sóbrio. O grande problema era que, nos últimos tempos, essa era uma cena quase impossível de ocorrer.

Ele perdera o emprego e culpava a esposa por seus erros profissionais. Não havia nele mais a figura do pai amoroso, apenas o jugo de um monstro, violento e agressivo, que se afundava cada vez mais no pântano do vicio.

Aos poucos, o silencio começou a reinar.
Havia sua mãe, portanto, cedido e se calado, aceitando mais uma imposição cruel de seu carrasco.

O tempo passava e mais e mais o dinheiro poupado em longos anos de esforço são gastos, sem que se obtenham resultados.

Os dias passam e a mãe adoece, num misto de tristeza, dor e angustia.
Causado, ou não, p ela tristeza e pelo sofrimento, o tumor cerebral cresce a cada dia.
O marido, cada vez mais devasso, deixa de lado, por certo tempo, o vicio das noites e se coloca ao lado da esposa.

Mas, quando a morte a leva, o pai, num misto de desespero e felicidade, dor e realização, se vê livre do fardo da esposa doente.

Deixa sua filha em casa, solitária e ferida pela perda, e se dirige ao bar.

Os anos se passam e a menina se torna uma jovem bela e solitária.
O medo e o trauma trazidos pelos maus tratos e pela violência de seu pai contra sua querida mãe haviam cravado nela uma barreira intransponível para o amor.

Eram sustentados por uma pobre e parca pensão, recebida de órgãos governamentais, gastos, em grande parte, nas noitadas do pai que, incauto e insensível, abandona a filha ao seu próprio esforço e sua própria dor.

A menina então procura, no trabalho domestico para famílias abastadas, o dinheiro para poder comer e viver de modo decente, mantendo assim sua vida pobre, mas digna.

Conforme seu corpo se desenvolve, mais a menina, agora praticamente uma mulher, percebe que seu pai passa a observá-la com outros olhos.

Temia que ele tentasse algum tipo de violência, assim como fizera com sua mãe por tantos anos.

No seu banho, a porta era constantemente trancada e, nas suas noites de sono, uma cadeira rígida, de madeira forte, escorava a fechadura, na tentativa de impedir a passagem do medo.

Um dia, no entanto, nada disso pareceu valer.

Na inconseqüência da bebida, seu pai entra em casa, seu corpo ansiando por uma satisfação carnal voluptuosa e proibida.

Arrombou a porta do quarto da filha, encontrando-a num sono profundo.

Quando ela acordou, era tarde demais.

As mãos pérfidas de seu pai seguravam seus braços e tocavam seu corpo puro e virginal.
Tentou gritar, mas a boca fétida e amarga calou seus esforços.

Logo o corpo pesado e forte subjugou o seu e então, com muita dor e humilhação, o ato foi consumado.

Lagrimas de vergonha, de ódio, de fúria rolavam pelo seu rosto e ela, num ultimo esforço, jura vingança.

O ato monstruoso logo se torna rotina, num tormento diário e freqüente, em que cada segundo significava mais dor e mais angustia.

Na escola, a menina se torna ainda mais distante e fria.
Mostrava, em suas atitudes e palavras, toda a dor e toda a angustia que tomava seu peito, mas parecia que este não era percebido por nada nem ninguém.

Cada vez mais o rancor aumentava e ela, forçada e humilhada, se via a pensar em morte e sangue.

Chegou a planejar o suicídio, mas a noticia da morte de um jovem aluno de sua escola, que se suicidara, atirando-se do topo de seu prédio, causou-lhe a centelha de duvida que fez com que ela desistisse.

Foi quando, numa tarde cinzenta de outono, que encontrou a resposta e a solução para todos os seus problemas.
Na casa de sua avó, encontrou a chave para sua liberdade.

A arma, brilhante e pesada, fria e fatal, estava carregada e parecia apenas esperar por suas mãos.
Seus dedos ágeis logo se apossaram do revolver.
Seu desejo era terminar tudo aquilo ali, naquele instante, mas decidiu esperar.

Naquela noite, quando seu pai, verdadeiro monstro e carrasco, tentou dela se aproveitar, ela, rápida e decidida, se valeu da força letal da arma para por um ponto final em tudo.

Logo o som dos disparos sobrepujava os gritos e o sangue manchava o branco carpete.

O corpo estirado, ferido, perfurado, morto, nada trouxe de emoção ou arrependimento ao peito sofrido da garota.

Nem pena, nem dó, nem medo, nem arrependimento, apenas alivio.
Seu corpo estava sujo com o sangue nodoso daquele que, um dia, fora seu pai, mas sua mente e seu coração pareciam não se sensibilizar.

Era agora órfã de pai e mãe, mas não se sentia infeliz, se é que podia dizer que tivera um pai.

Para ela, sua orfandade fora realmente decretada quando, pela primeira vez, seu pai se aproveitara de seu corpo.

Conseguira afinal honrar sua vida e salvar, pelo menos para si, seu orgulho, sua vida e sua dignidade.

Sentou-se na janela e ligou para a policia.
Não tinha medo, afinal passara por tudo aquilo que poderia fazê-la querer morrer e vivera.

Ao longe, gritos e sussurros cortaram o silencio da noite escura e então as sirenes se tornaram mais altas e mais próximas.

De seus olhos, apenas uma lagrima escorria.

Era por sua mãe, que não estava ali para poder ver que, no fim de tudo, ela conseguira ser algo que realmente valia a pena viver.

Disparou mais uma vez e então se fez o silencio.

Ao longe, a lua manchou-se de vermelho.

Relatório Policial

Vitima: Homem branco, 36 anos, cabelos escuros.
Causa da morte: 8 disparos de arma de fogo, sendo o ultimo na região da virilha.
Possibilidades: Homicídio, assumido pela filha.
Motivação: Histórico de violência sexual por parte do pai para com a filha, violência domestica.
Fato estranho: A menina, como que hipnotizada, segurava a arma quando foi encontrada pela policia. Foi ela a autora da denuncia.

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