terça-feira, 2 de junho de 2009

Nação despedaçada pt4

Willian não pode conter o sentimento que o tomou naquele instante. Seu corpo foi tomado de um tremor e então ele exteriorizou seus pensamentos.

Ele riu.

Talvez seja mais exato dizer que ele gargalhou, pois sua risada se manteve durante varios minutos, atraindo a atenção de todos os que estavam no recinto. Seus olhos estavam marejados e ele parecia sufocado com sua propria piada.

-Voce só pode estar brincando com a minha cara, meu amigo. Isto é algum tipo de piada interna? Todos os jovens são recebidos com isso?

O homem o olhou tranquilo, como se aquilo não o surpreendesse. No entanto, uma das mulheres que frequentavam o local decidiu interromper o que para ela parecia um desrespeito ao ancião que ali estava.

-Porque voce ri? Parece que isto é uma piada extremamente engraçada. Voce poderia nos explicar?

Um homem que estava sentado no fundo, capuz cobrindo seu rosto, barba espessa e longos cabelos, questionou os motivos da mulher e disse apenas que o garoto tinha direito a descrença.

-Deixe o garoto em paz - disse o homem. - Não há motivo para tratarmos nosso jovem desta maneira.

A mulher permaneceu o encarando, de forma um pouco mais discreta e educada, mas não menos agressiva. O ancião o olhou com olhos suplicantes e apenas esperou que a explicação viesse dos lábios de Will.

-Isso é ridiculo, meus caros. E tem apenas um motivo. Eu não sou descrente nem nada, mas acho que o Grande Visionario não pode ser meu pai. E só existe um motivo pra isso. Eu não tenho pai.

Silencio reinou na sala e então ele continuou:

-Devo ter tido algum tipo de pai biologico, que me "fez", mas acho que minha experiencia paterna se resume a isso. Vivi até meus 17 anos entre os abrigos desta cidade e a casa de minha avó. Minha mãe faleceu alguns anos depois que eu nasci e então minha vida foi uma sucessão de desastres e de desilusões.

As vozes que questionavam sua palavra se calaram ao ouvir o tom triste, porém resoluto e decidido de Will. Não havia nele magoa ou rancor, apenas um sentimento de pesar.

Ele olhou fixamente para o homem e para seus interlocutores e prosseguiu:

-Eu passei os primeiros anos de minha vida procurando por um pai, mas ele nunca apareceu. E agora, que eu já possuo uma vida estavel e razoavelmente normal, começo a me embrenhar nesta loucura de sentimentos e de mensagens inexistentes. Tudo que sei é que algo me fez chegar aqui. E eu gostaria de entender tudo isso.

Seus olhos negros fitaram o nada por um instante e ele então questionou o homem sobre seu pai. Olhando fixamente para o homem, William deixou que sua duvida se expressasse em palavras.

-Você realmente sabe o que diz ou são apenas palavras soltas?

-Não tenho motivos para mentir, meu jovem. E pelo que vejo em seus olhos, você tem a mesma força e a mesma revolta que seu pai tem no olhar. Você é sem duvida filho de nosso Grande Visionario. Ele teria orgulho do seu ceticismo, se estivesse aqui.

-E onde ele está? Ele está por perto?

-Infelizmente para nós, meu jovem, ninguem nunca sabe onde se encontra o Grande Visionario. Sinto muito, terá que encontra-lo sozinho.

Alguem, que obviamente havia abusado do alcool e que parecia realmente abalado psicologicamente, gritou algumas obcenidades que Will não conseguiu ouvir. No entanto, ele continuou.

-Como podemos saber se ele é realmente um filho do Grande Visionario? Provavelmente sua mãe era apenas mais uma vagabunda que tinha interesse no status que nosso lider possui. Ele não passa de um bastardo filho de uma vagabunda, uma meretriz de quinta.

E então ele cuspiu no rosto de Will. A expressão calma do ancião pareceu tomada de choque, mas William não se moveu. Ele apenas encarou o homem, olhos cheios de uma piedade e ao mesmo tempo de uma raiva que não se fazia sentir por palavras.

O ébrio homem continuou com seu show de obcenidades, fazendo com que exclamações indignadas partissem das pessoas que o rodiavam. Então ele pegou uma garrafa de bebida que estava em sua mesa e a quebrou, formando uma espécie de arma com a qual ele avançou contra William, pretendendo claramente feri-lo.

Antes que Will tivesse tempo para tomar algum tipo de atitude ou reação, o homem de capuz negro estava proximo daquele repugnante bebado. E então todos sentiram o cheiro de sangue invadindo o ar e o som de ossos se quebrando se fez ouvir. Vidro se partiu e a violencia parecia estar tomando a noite que começara tão pacata.

Quando todos deram por si, William estava um pouco distante da multidão, e fixamente olhava para o homem bebado, que tinha sua mandibula destroçada por murros ferozes do estranho de capuz e parecia baleado no peito por uma arma de forte calibre. No entanto, antes que o choque passasse, eles perceberam que o homem de capuz não estava mais lá.

Ele havia desaparecido, assim que tudo havia sido feito.

Um olhar de aprovação passou nos olhos de Will e então ele entendeu.

Aquele homem só podia ser uma pessoa.

Aquele homem era seu pai.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentario o/